O pingo que pinga
Da pinga pingada pro Santo
O pingo de lágrima que pinga
É pingo de pranto
O pingo de pinga no chão
Mistura c'os pingos
Pingados da pingueira
Que molha também o colchão
O pingo de pinga na mente
Do pobre pinguço
Da vida descrente
O pingo de chuva
Não pinga na telha
É rancho ou tapera
De palhas coberta
De palhas de arroz ou sapê
Coberta de palha
É parede de barro
De palha é o cigarro
Que vai acender
Acende cigarro
E tira um trago
Tentando um afago
No ego ferido
Engole o lamento
Engole a seco
Mastiga o pão seco
Do pouco que tinha
Não tem margarina
Não tem mortadela
Nem mesmo sardinha
Domingo à tardinha
Comeu com farinha
A última que tinha
Depois do café
Da vida sem fé
Segue pro roçado
Mas sempre paciente
Nunca revoltado
O pobre coitado
Vai tocando em frente
À tarde retorna
Bastante cansado
Da dura labuta
Do cotidiano
Entra ano e sai ano
Sempre repetidas
Tais cenas da vida.